Na década de 70, a mais prolixa em manifestações musicais, em todo o hemisfério ocidental, despontaram também no Brasil muitas novidades, muitos caminhos a serem percorridos e propostas renovadoras de apresentação das intenções populares, folclóricas e abafadas pelas ditaduras latino americanas, lacaias do 'manditismo' norte-americano, apavorado com as peripécias dos comunistas soviéticos e seus simpatizantes mundo afora.
Karl Marx era o próprio Belzebu - Lenin, Stálin, Fidel e Che Guevara a constelação apocalíptica, os 4 cavaleiros do Mal - a serviço do terror.
Terror mesmo foi a reação dos capitalistas e dos apaniguados do sistema, subdesenvolvidos, feitores e guardadores das fazendas, pretensamente eternos capitães hereditários dos quintais que destroçaram as liberdades civis e sociais em nome da defesa dos interesses mesquinhos dos ianques donos da máquina, dos meios de produção, de comunicação, das polícias e dos exércitos. Massacre - foi o que sofreu a América Latina.
Se antes a Europa a havia saqueado sob a conduta histórica dos Descobrimentos e Colonialismo por reiss e Igreja, e, suas diversas incursões em nossos tesouros naturais, assegurando à sua glória temporal os domínios sobre tantos povos, em pleno século XX, nos idos dos 70 a hegemonia norte-americana abria as veias das terras abaixo da linha do Equador, como diria Galeano, e introjetava seu projeto de dominação a partir de uma enxurrada de motivos culturais, políticos, econômicos para dominar não apenas a estrutura social mas a própria alma destes povos.
Muitos sucumbiram, muitos resistiram. O Panamericanismo sempre foi uma constante, e hoje bem poderia ser mais atuante e forte se a mídia ainda vendida não desse mais importância às patetadas do caudilho venezuelano Chavéz do que aos motivos e verdadeiras razões pelos quais se travam estas batalhas históricas. Trata-se, de fato, de manter viva uma parte do mundo e suas características míticas, atemporais, indeléveis, inalienáveis - e de procurar impedir a hegemonização, a pasteurização, a mesmice idiotizante que o capital, hoje financeiro e com ferramentas da poderosa e avançada tecnologia, acoplada à indústria cultural, pretende estender a todos os seus domínios - shoppings centers, carros à gasolina e cartões de crédito - é ao que querem resumir os nossos sonhos, a nossa existência, os senhores donos das grandes corporações financeiras mundiais.
Mas, existir é resistir, interferir - cantar e tocar 'desinteressadas' canções ao vento e lançá-las ao sabor dos murmúrios dos rios, notas levadas pelo ar como pólen fecundante, sopradas pelas flautas, queñas, zamponãs, tarkas, dedilhadas em charangos, violas, violões e quattros, batidas em bombos legueros, panderos, chocalhos, maracas, unhas de lhamas, 'una primerita, segundita e inúmeras veces a tocar lejos en los coraciones más llenos de amor por la tierra', terra mestiça.
Mas, como disse uma destas cancioneiras, mulher que atravessou dois séculos e anda canta - 'nos vamos nos poniendo viejos' e apesar do cansaço e da correira pelo necessário, cada vez mais perdido na poeira das (des)necessidades inventadas pela máquina de criar ilusões, sabe-se que sonhos não envelhecem e que se antes a resistência era uma força juvenil, hoje ela é uma energia concentrada, consciente e focada - a verdade nunca será apagada. O canto de milhares de jovens em todo o mundo sempre entoou a mesma canção de solidariedade, de liberdade, de paz e de amor.
E ainda que muitas vezes traído por muitos dos que conosco foram jovens e sonhadores, eles, que nos ouviram uma vez não poderão jamais negar - levamos no sangue e nas vozes a marca da verdade essencial que nossos netos cantarão para sempre pelos seus netos e além.
Mais que pátrias, defendemos com o canto o direito elementar de sermos humanos e de buscar mais humanidade...
Em um famoso texto, intitulado "O que deve ser um Jovem Comunista", Che nos ensinou que militante moço deve desenvolver-se ideologicamente até chegar ao ponto de: "sentir-se angustiado quando em algum canto do mundo um homem é assassinado e até o ponto de sentir-se entusiasmado quando em algum canto do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade." Pois bem, ao ler este belo texto, chego a duas conclusões. 1) Espero que o(a) camarada autor do escrito, ao referir-se ao Presidente Chavez como "caudilho", altere sua grafia para "caudillo", pois a versão hispânica da palavra significa "Chefe Guerreiro", ao contrário da versão exposta no texto, que nos remete à adjetivos como "ditador", insulto tão comum nos veículos da imprensa burguesa. 2) Concordo que a chamada "Revolução Bolivariana" que vem se dando, bem como o chamado "Socialismo do século 21", estão bastante aquém dos feitos necessários para a construção de uma sociedade sem classes, devido a sua timidez em realizar grandes rupturas sociais, culminantes na destruição do Estado Burguês e na Construção do Estado Operário. Porém, os governos da Venezuela e de outros países da America Latina, vem representando uma forte resistência ao imperialismo estadunidense, seja na estatização de áreas estratégicas, nos programas sociais, ou no combate ao colonialismo britânico. O Estandarte que se ergue principalmente na Venezuela, não é a "Nossa Bandeira", mas é uma Bandeira de Liberdade, como as que Che nos orientou a respeitar e prestar solidariedade.
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